TÔNIA, SEU CARINHO E UM JOVEM REPÓRTER
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TÔNIA, SEU CARINHO E UM JOVEM REPÓRTER

Artigo 12.03.2018

                                TÔNIA, SEU CARINHO E UM JOVEM REPÓRTER

FOI uma das mulheres mais bonitas do seu tempo, de todos os tempos. Beleza que reunia, o que não é comum, talento, inteligência e cultura. Em junho de 2015, quando circulou uma notícia falsa sobre sua morte, escrevi neste espaço sobre ela e sobre um encontro muito antigo de um jovem repórter com a menina-mulher, também muito jovem, encontro que gerou uma entrevista, um gesto carinhoso e uma doce recordação.

EM sua homenagem, com sua partida confirmada e definitiva, reproduzo abaixo alguns trechos do que escrevi em 2015, uma crônica emocionada que mandei para ela lá no Rio, onde sempre morou.

“EM lugar de horrores, vamos falar de flores? Em lugar de lavas-jatos, de mensalões, de corruptos e corruptores, que tal falarmos de inesquecíveis olhos azuis iluminando um rosto rosa-pálido emoldurado por cabelos louros cacheados de uma das mulheres mais bonitas de sua geração. Uma mulher que conseguiu vencer, com sua beleza eterna e seu talento, o tempo e o vento que tudo destroem por onde passam. E como passaram agitados e alegres na vida da dona de inesquecíveis olhos azuis!

“QUEM é ela? Somente poderia ser Tônia Carrero. Leio nos jornais (junho de 2015) que alguém anunciou sua partida. Para alegria de todos nós, seus admiradores, a notícia era falsa, ela continua viva e linda, aos 92 anos, em seu apartamento de Ipanema, que trocou pela mansão enorme do Jardim Botânico, em que viveu a maior parte de sua vida. Sempre acompanhada pelo único filho, Cecil Thiré, pelo afilhado do coração, Leonardo, e pelos quatro netos e cinco bisnetos, ela permanece lúcida, participante, buscando manter a postura e a atividade com suas aulas de Pilates e fisioterapia, ouvindo, e sempre sorrindo, as histórias que netos e bisnetos gostam de contar. Com os eternos olhos azuis sempre iluminados e iluminando.

“TÔNIA, ou Maria Antonieta de Farias Portocarrero, Mariinha para os muito íntimos, queria ser atriz desde criança. Pediu à mãe para estudar balé. Não foi atendida: “Deus me livre. Essa menina, se eu descuido, acaba no palco”, disse a mãe. Depois de um filme, aos 26 anos, depois de estudar em Paris, fez sua estreia no teatro, confirmando o vaticínio de d. Zilda, com a peça “Um Deus dormiu lá em casa”. Daí em diante, dominou a cena, o público, os palcos, com seu talento, sua beleza, seus olhos azuis.

AGORA, a recordação que guardo com muito carinho. “Conheci Tônia no início de sua carreira. Jovem repórter, “foca” (aprendiz), na redação do  “Estado de Minas”, na rua Goiás, fui escalado pelo redator-chefe, Geraldo Teixeira da Costa, para entrevistar a nova artista que estava se apresentando no Francisco Nunes – então Teatro de Emergência, obra  do ex-prefeito Octacílio Negrão de Lima, no Parque Municipal.

“A ENTREVISTA foi na casa em que se hospedava, da família Marschner, uma mansão, no alto da avenida Afonso Pena. O jovem repórter chegou, algo tímido. Tônia o levou para o seu quarto, fechou a porta, sentou na cama e convidou o quase rapaz, naquela altura totalmente deslumbrado pela beleza da entrevistada, para sentar-se ao seu lado. Com a caneta nas mãos, certamente trêmulas pela emoção e pelo deslumbramento, o rapazinho fez as perguntas usuais, anotou tudo, e se surpreendeu ao ser também entrevistado por ela. Carinhosamente, quis saber seu nome, se era casado (era, recém-casado e apaixonado), se tinha filhos (tinha, a primogênita com nome parecido com o da artista, Tânia).

“A CONVERSA continuou no mesmo tom carinhoso, até que ele percebeu que era o momento de voltar para o jornal. Levantou-se, ela também, e aí o gesto que nunca esqueceu: Tônia pegou com uma das mãos o queixo do rapaz, apertou com carinho, e disse apenas: “Você foi um amor”. Quem pode esquecer isso? Ele voltou para a rua Goiás cogitando que aquelas palavras e aquele gesto carinhoso demonstravam o reconhecimento da mulher belíssima, naturalmente sempre perseguida pelos admiradores, pelo comportamento respeitoso do tímido repórter, alguns anos mais novo do que ela.

“NA saída, Tônia perguntou se ele gostaria de levar sua sua filha ao espetáculo infantil que ela iria apresentar na manhã de domingo (ou seria sábado?), no mesmo teatro. Aceitou, e ganhou dela os convites. Foi ao teatro com sua filha. Na peça Tônia fazia o papel de um coelhinho, com direito a rabinho, duas orelhas grandes e tudo mais. Teatro cheio, muitas crianças, todos gostaram, bateram palmas. O rapaz já ia saindo  quando  Tônia, ainda com a roupa de coelhinho, desceu do palco, beijou seu rosto, pegou sua filha no colo e o acompanhou até a saída, diante dos olhares surpreendidos de todos os espectadores.

“ELES se encontraram muitos anos depois, no apartamento de José Aparecido, no Rio. O ex-rapaz, já maduro, mas ainda tímido, não mencionou aquele dia tão marcante na sua mocidade. E ela não deve ter se lembrado mais do episódio, nem do rapaz que ele fora.

“SOBRE Tônia, sua eterna e platônica paixão, eram as conversas dos fins de tarde, e de uísque, de Rubem Braga, em sua casa em Tanger, ao lado de Gibraltar, com mesmo ex-jovem repórter. Rubem, que começou sua carreira como jornalista no “Diário da Tarde” de Belo Horizonte, era embaixador do Brasil no Marrocos. Sua casa, que hospedou o ex-jovem repórter, sua  Rachel e o diplomata Paulo de Tarso Nonato, que vinham de Algeciras, na Espanha, ficava no alto de uma colina, diante do Mediterrâneo. O velho Braga, maior cronista de nossa história literária, conheceu Tônia, numa roda de amigos, no Leblon, Rio. Belíssima, inteligente e culta, ela dominou a conversa. Rubem, já apaixonado, comentou:  “Ela fala pelos cotovelos. Mas que cotovelos…”

AGORA, Tônia partiu de verdade. Com sua beleza, seu talento, seus irresistíveis olhos azuis. Ao ex-jovem repórter só resta recordar e dizer: Que saudade daquele dia!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                Blog: fabiopdoyle.zip.net
FÁBIO P. DOYLE
Da Academia Mineira de Letras
Jornalista
Colunista / Colaborador da 2/1 Revista Eletrônica
0 0 1000 12 março, 2018 Cultura Organizacional março 12, 2018

Sobre o autor

CEO e Fundador da 2/1 Revista Eletrônica, Relações Corporativas, Ombudsman, atuou no Jornal O GLOBO (GRUPO GLOBO), Diário da Tarde (Diários Associados), Diário do Comércio, Pohlig Heckel do Brasil (Grupo Belgo Mineira) e Diretor de Relações Públicas do Rotary Club.

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