Os ativos mágicos de Lídia Miquelão Pena  —  Texto: Rogério Zola Santiago*
Publicado por

Os ativos mágicos de Lídia Miquelão Pena  —  Texto: Rogério Zola Santiago*

Princípio ativo é a substância existente na formulação de medicamentos, obtendo-se efeito terapêutico. O “remédio” (assim como na Arte) não se resume a princípios. Para fazer comprimidos ou xaropes, são indispensáveis outros “ingredientes” que vão garantir que o produto final se ofereça líquido ou sólido, com definição de cor, sabor e contextura. Assim ocorre na magia tátil da escultora Lídia Miquelão Pena, artista plástica pintora e ceramista de materiais nobres pesados que não quebram e nem se danificam, pós-levados a mais de 1200 graus Celsius. Pintados antes e depois do forno, esmaltados ou tratados com óxidos, constituem objetos de terracota/barro preparado. Em um dos quadros em acrílica, sucessão de perfis sobrepostos, sombras da realidade além-humana em quadrinhos de fada. No “background“, troncos verde-bem-escuros calam, conforme diria Valmick Vilela Guimarães (UFMG, Letras), “fazendo-nos também poetas” da tinta. O teor ativo da artista reside na trajetória das mãos dadas; rostos colados, faces lado a lado, crânios vivos em continuidade planejada. É como se algumas das máscaras faciais refletissem meio-ambiente e quimeras de bichos e seres humanos que sonham. Racionais ou supra-racionais.

Lídia Miquelão Pena aprofunda-se por intermédio de estudos no Brasil e no Exterior. Da Escola Guignard, passou por oficinas práticas (dentre elas, com Fernando Veloso), aqui e em países europeus. Assim, Miquelão se refaz por meio da vivência técnico-afetiva em lugares como Roma, Itália (de seus ancestrais). Sua pigmentação é paladar textural (dá vontade de passar a mão nas bolinhas da superfície dos materiais). Trabalhos em série e as fases propõem suave melopeia, ritmo hipnotizante das canções/letras da época medieval francesa – envolvente “melopée” que, ao fixar elementos que se assomam, repetem-se, afixando atenções.

A delicada Miquelão adentra o patamar artístico TOP de Minas e do Brasil, após 40 anos dedicados ao esculpir de “kefálas” (cabeças, em grego), e voltados à pintura de mãos, riscos no lugar dos olhos e orifícios simbólicos de bocas esculpidas ou desenhadas, corpos andróginos ou de gênero definido com referências ecológicas e ‘modiglianas’. A artista transita entre experimentações: até panos de limpar pincéis são incorporados por meio de recortes e colagens. Remetem a jardins floridos na interseção de estilos, formatos e opções gráficas ora minuciosas, ora superfície sob e ao lado da temática das faces e dos corpos agrupados.

A escultora/pintora/desenhista conta com apoiador co-participante (emolduramentos e bases de madeira de demolição par camafeus em cerãmica desenhada). Trata-se do esposo físico Carlos Monken (UFMG, pós-doutorado em Rochester, USA, com sabático na Holanda). Ao lado de ambos, o filho Vitor Pena Monken que cria e imprime, em três dimensões, suportes para mini-criações. O efeito terapêutico da obra de Lídia Miquelão Pena é de calmo êxtase perante algo maior que o olhar que pode ser frio perante o enigma da opção elaborativa. Com não-óbvias referências raciais nipônicas, afro-brasileiras, aborígenes e indígenas, suas peças propõem singeleza esculpida, estilizada, a desvelar estórias. São maneiras de conviver tornadas palpáveis criaturas de argila, depois, cerâmica pós-forno para a grata exposição em galerias ou didática performance perante alunos/as meninos e meninas, pré-adolescentes e adultos de todas as idades.

Texto: escritor e jornalista Rogério Zola Santiago, Mestre em Crítica pela Indiana University, USA – 2018

0 0 1100 11 março, 2018 Mix Informações março 11, 2018

Sobre o autor

CEO e Fundador da 2/1 Revista Eletrônica, Relações Corporativas, Ombudsman, atuou no Jornal O GLOBO (GRUPO GLOBO), Diário da Tarde (Diários Associados), Diário do Comércio, Pohlig Heckel do Brasil (Grupo Belgo Mineira) e Diretor de Relações Públicas do Rotary Club.

Ver todos os artigos por Jean Hausemer

Postagens relacionadas

Artigos recentes

  • Japoneses planejam primeiras colônias lunares
    Japoneses planejam primeiras colônias lunares
  • Porsche abandona o diesel
  • “O Homem no Espelho”: Espetáculo musical que reverencia Michael Jackson, em cartaz no Sesc Palladium, dias 26 e 27 de outubro
  • As pesquisas como fator eleitoral
  • Mobilidade urbana não entra no debate de candidatos aos governo de Minas
  • Você decide. E arca com as consequências
  • BRASIL MOSTRA TUA CARA