A morte do sandinismo histórico
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A morte do sandinismo histórico

AMÉRICA LATINA

No 39° aniversário da revolução sandinista, a Nicarágua atravessa profunda crise. Hoje, dizem observadores, o ex-guerrilheiro Daniel Ortega é um líder mais preocupado em se manter no poder e em enriquecer sua família.

    
Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega                                                                                                                                        Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega

A Nicarágua lembrou na última quinta-feira (20/07) o 39º aniversário da vitória da revolução sandinista. A data foi ofuscada pela crise profunda que atravessa o país latino-americano e que deixou centenas de mortos em três meses de protestos contra o presidente Daniel Ortega.

“O sandinismo histórico morreu. Ele foi sistematicamente pervertido até terminar como uma fachada, que serve para impor os interesses do clã Ortega. É um sistema clientelista, que foi financiado pela Venezuela. Além do vocabulário revolucionário, as raízes históricas foram sepultadas”, diz o cientista político Günther Maihold, vice-diretor do Instituto Alemão para Política Internacional e Segurança (SWP).

José Luis Rocha, sociólogo e pesquisador da Universidade de Marburg, explica que, na década de 80, a Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN) foi gradualmente cooptando os movimentos sociais no país. No mais tardar em 2007, quando Daniel Ortega retornou à presidência, eles perderam sua independência. “Sob Ortega, a Frente Sandinista demoliu o movimento social na Nicarágua e o colocou a seus pés e seu serviço”, diz o especialista nicaraguense.

Rocha também critica o “empobrecimento ideológico”, ou seja, o distanciamento de grande parte da intelectualidade sandinista ocorrido sob a liderança de Ortega. Dos nove membros da histórica liderança revolucionária nacional, apenas três permanecem leais ao seu governo.

Na opinião de Günther Maihold, o ex-líder guerrilheiro se tornou um político tradicional, que tem minado sistematicamente a democracia através de acordos informais, acumulação de poderes políticos e o enfraquecimento da oposição. “Levado pelos interesses políticos e esotéricos de sua mulher, a vice-presidente Rosario Murillo, ele tem se isolado cada vez mais e se distanciado da realidade social de seus cidadãos”, avalia o especialista.

José Luis Rocha diz que Ortega sempre teve uma personalidade “cinzenta, pouco atraente”. Ele descreve os discursos do líder sandinista como “monótonos” e lembra que nos anos 80 ele chegava atrasado e fazia com que seu público esperasse por horas.

Acima de tudo, na opinião do sociólogo, a brutal repressão aos protestos dos últimos meses expôs o autoritarismo de Ortega. Rocha salienta que, em seus últimos 11 anos de governo, o presidente não apenas usou de um autoritarismo “às vezes tido como o pior dos governos de esquerda”, mas também aplicou as mesmas políticas neoliberais dos governos de extrema direita da América Latina.

“Já nos anos 80 havia indícios de que não estava mais com a cabeça e a alma no misticismo revolucionário, lutando pela mudança social, e logo veio uma deterioração bastante acelerada”, acrescenta.

A partir dos anos 90, Ortega começou a acumular riqueza. Maihold lembra do Canal da Nicarágua, projeto que, segundo ele, “viola a soberania da Nicarágua”, mas enriquece a família do presidente.

Com sua estratégia linha-dura, o presidente da Nicarágua tem oprimido maciçamente o movimento de protesto. É por isso que o cientista político da SWP não acredita que Ortega seja obrigado a renunciar a médio prazo. Maihold acredita que o governo é relativamente imune a pressões externas e que apenas uma piora da situação econômica poderia abalá-lo.

Já José Luis Rocha, da Universidade de Marburg, afirma que o tempo corre contra Ortega. “No momento, pode ser notada uma vitória militar, mas ele sofreu um fracasso político na OEA e vai continuar colecionando fracassos políticos”, comenta. “O repúdio maciço se mantém e continuará a ser um combustível nesta luta a nível interno”. Rocha espera que às sanções dos Estados Unidos também se somem sanções da UE, assim como de partidos e líderes de esquerda. “Isso é o que tem o maior efeito sobre a psicologia de Ortega”, conclui.

Autoria Viola Traeder

Fonte:Deutsche Welle

0 0 230 21 julho, 2018 Acontecimentos julho 21, 2018

Sobre o autor

CEO e Fundador da 2/1 Revista Eletrônica, Relações Corporativas, Ombudsman, atuou no Jornal O GLOBO (GRUPO GLOBO), Diário da Tarde (Diários Associados), Diário do Comércio, Pohlig Heckel do Brasil (Grupo Belgo Mineira) e Diretor de Relações Públicas do Rotary Club.

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