Tradição e resistência de uma arte secular
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Tradição e resistência de uma arte secular

Localizada na rota da Estrada Real, Passa Tempo é reconhecida pela criação do cavalo Mangalarga Marchador e pelos estudos ufológicos e aparições de Ovni’s. Mas, uma tradição peculiar também contribuiu para elevar o município a um patamar cultural de destaque em Minas Gerais e em todo o Brasil: a produção do tapete arroiolo.

De origem eslava, a técnica do “ponto de cruz curto e comprido” foi levada pelos mouros para a Espanha e para Portugal. O nome faz menção a uma vila portuguesa chamada “Arraiolos”, onde se concentravam diversas famílias mouras.

A vila do distrito de Évora, também reunia uma gama de artesãos de raro talento, que aprenderam com os mouros a tecer o ponto de cruz típico do tapete arraiolo, disseminado em todo o mundo.

A arte teve influências da cultura persa, com desenhos florais e geométricos; e ainda traços da tradição popular. As cores fortes também são características do arraiolo.

O ápice da indústria artesanal da vila Arraiolos se deu a partir do século 18. A introdução das máquinas no feitio dos tapetes a partir do século 20 decretou o fim dos tapetes produzidos artesanalmente naquela região.

Oficinas foram fechadas restando apenas algumas bordadeiras que teciam os tapetes em suas próprias casas.

Uma delas, Jacinta Rosado, motivou outras mulheres da vila a erguer uma nova fábrica para a produção dos tapetes, resgatando assim a cultura do arraiolo. A produção dos tapetes é, ainda hoje, uma das principais fontes de renda da vila dos arredores de Évora.

O arraiolo chegou ao Brasil pelas mãos de imigrantes portugueses. Passa Tempo conheceu o método há 36 anos.

Os passatempenses creditam ao Padre Irineu Leopoldino de Souza a chegada do primeiro tapete do tipo à cidade. Padre Irineu conheceu uma cooperativa de tapetes arraiolos em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e decidiu incentivar as mulheres da cidade a investirem nessa arte, até então, pouco conhecida para alguns e uma completa novidade para a maioria.

Os desafios foram imensos desde o começo. O aprendizado da técnica foi adquirido com esforço, mas, enfim, a primeira remessa de tapetes arraiolos de Passa Tempo ficara pronta.

Padre Irineu fez questão de promover uma exposição na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória. A apresentação encantou toda a cidade e mais mulheres se interessaram em aprender a arte do arraiolo.

Duas passatempenses auxiliaram o Padre Irineu na coordenação da escola de arraiolos que havia sido arquitetada para a produção: Terezinha de Morais Urbano, conhecida como Dona Juju, e Zilda Lara da Silva. O pároco deixou a cidade e, sem sua presença, a escola fechou.

O fechamento não foi empecilho para que a produção de arraiolos seguisse seu curso. Dona Juju e Zilda conseguiram uma garantia de Padre Irineu, que mesmo longe, se comprometeu a fornecer a matéria-prima, adquirida em fábricas de São Paulo. O trato foi uma espécie de permuta, já que os custos seriam pagos com os tapetes confeccionados.

Foi então que a primeira tapeçaria de Passa Tempo abriu suas portas. Dona Juju e Zilda inauguraram a “Bordados Rami”, uma referência ao tecido utilizado para bordar os tapetes. Hoje, as tapeçarias usam a juta.
A tapeçaria chegou a ter cerca de 200 mulheres trabalhando, e transformou a vida de muitas famílias e o cenário econômico de Passa Tempo.

Depois da Bordados Rami, uma série de outras tapeçarias foram abertas na cidade. Uma delas, a Tapeçaria Girassol (reconhecida em todo o Brasil), foi responsável por disseminar a arte do arraiolo por várias cidades da região de Passa Tempo. E o que era uma tarefa feminina, passou a contar também com a mão-de-obra de vários homens.

Estava assim instituída a principal fonte de renda da cidade. Em 2003, foi fundada a ATAPT (Associação das Tapeçarias e Artesanato de Passa Tempo), que congrega atualmente 14 tapeçarias.

A arte secular do arraiolo, que tanto contribuiu para a economia e para a cultura da cidade, proporcionando renda a dezenas e até a centenas de famílias, vive hoje uma difícil realidade.

A presidente da ATAPT, Maria Dulce Silva Souza, lamenta o atual momento. “É preciso promover mais publicidade ao arraiolo feito em Passa Tempo. O poder aquisitivo das tapeçarias é pequeno e não é possível ampliar a produção”.

Segundo ela, a ATAPT recebe apoio do Executivo Municipal para as feiras que acontecem em outras cidades. Contudo, a dirigente destaca a necessidade de mais iniciativas para retomar o panorama de outros períodos.

Dulce ressalta ainda que as tapeçarias existentes lutam arduamente para manter viva a cultura do arraiolo passatempense. “A ATAPT mantém essa admirável tradição da cidade. A entidade espera continuar tendo apoio para manter suas atividades”.

A importância do arraiolo para Passa Tempo fez com a Prefeitura realizasse um estudo a fim de torná-lo Patrimônio Imaterial, destacando a confecção artesanal dos tapetes. Não há informações disponíveis quanto ao andamento do projeto.

Fato é que uma tradição secular como o tapete arroiolo de Passa Tempo, reconhecida em todo o Brasil, merece ser valorizada, preservada e exaltada. Uma cultura de tamanha importância não pode ser esquecida.

*Com informações de Antônio Faleiro

Texto da tapeçaria Porão 181:

Desde que a arte do arraiolo chegou a Passa Tempo (MG), há quase 40 anos, a tapeçaria Porão 181 produz essa técnica secular, atendendo encomendas em todo o território nacional.

Pelas mãos da artesã Sueli Amorim, os tapetes ganham cores e formas com as características que fizeram do tapete arraiolo uma das referências culturais da cidade do centro-oeste mineiro.

Todo o processo é feito artesanalmente na tapeçaria que, como tantas outras de Passa Tempo, iniciaram a produção dos tapetes nas casas de quem apostou e se dedicou a essa prática reconhecida mundialmente.

Texto Letícia Simões*

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0 0 1480 05 agosto, 2017 2por1, Cultura Organizacional agosto 5, 2017

Sobre o autor

CEO e Fundador da 2/1 Revista Eletrônica, Relações Corporativas, Ombudsman, atuou no Jornal O GLOBO (GRUPO GLOBO), Diário da Tarde (Diários Associados), Diário do Comércio, Pohlig Heckel do Brasil (Grupo Belgo Mineira) e Diretor de Relações Públicas do Rotary Club.

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