46.625 dias de uma nobre casa
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46.625 dias de uma nobre casa

Artigo 18.12.2017

   46.625 dias de uma nobre casa


Antigo prédio da Faculdade de Direito e parte da praça Afonso Arinos.

COMO a dança que cansa  da reforma da previdência,  musicada pela desafinada orquestra irresponsável e impatriótica dos senhores deputados, continua a ser dançada e solavancada nos salões sombrios da nossa chamada República, melhor deixar para outro dia, para outra semana, para outro ano, – quem poderá prever? – a crônica cansativa e aborrecida que, sobre  assunto, estava sendo escrita e publicada aqui e por ai. Sem perder a esperança de que possa  ter um final feliz, aprovada para o bem do país e dos brasileiros, nesta véspera de Natal. Um presente de Papai Noel.

MELHOR mudar a temática. Melhor, ainda, escrever sobre uma data histórica que envolve a vida e o interesse de milhares, dezenas, centenas de milhares, – quem já os contou?, – professores, ex-professores, alunos e ex-alunos, ministros, magistrados, parlamentares, escritores, advogados, que lustraram e ilustraram os bancos das salas de aula da “Vetusta Casa de Afonso Penna”, hoje espalhados por todo o Brasil.

125 ANOS não são 125 dias. Basta multiplicar para obter o resultado fantástico de  46.625 dias. Este o tempo de vida de uma instituição que honra Minas e dá orgulho aos mineiros, a Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais. A data foi comemorada terça-feira, dia 12, com o auditório lotado de novos e velhos alunos, novos e ex-professores, ministros, desembargadores, juízes, membros do Ministério Público, na ativa ou já aposentados.  .

Fachada do prédio que abriga a Faculdade de Direito da UFMG
FOI uma festa importante e bonita, organizada pelo diretor da Faculdade, o professor Fernando Gonzaga Jayme, pelo vice Aziz Tuffi Saliba, pela secretária Valéria Maciel de Souza, com a participação de toda a sua equipe. E mais importante ainda, pelo lançamento de um livro, “O Casarão da Praça da República”, do professor Hermes  Vilchez Guerrero, mestre de Direito, que fez parte, com o diretor, o vice, e o autor do prefácio, da mesa que coordenou a solenidade. O livro, escrito por um pesquisador obstinado, revela tudo sobre a Faculdade, desde a sua fundação, em 1892, até 1930. O segundo volume, de 1930 a 2017, está sendo preparado. Uma pesquisa que não abrange apenas a história da escola, mas de BH, de Minas e do Brasil daqueles tempos.

FOI no final do século XIX que um grupo de pioneiros, advogados, políticos, decidiu criar em Villa Rica, hoje Ouro Preto, a Faculdade Livre de Direito. Livre por ser particular, independente dos governos, embora integrada por bacharéis que governavam e governaram o Estado, alguns deles, promovidos pelo alto conceito, da presidência de Minas (era assim que se chamava) para a presidência do país. Livre por não se subordinar a nenhum poder discricionário maior, apenas à sua congregação. Affonso Penna, Francisco Veiga, Levindo Lopes, David Campista, Rebello Horta, Henrique Salles, Silviano Brandão, Mello Franco, Donato Fonseca, Adalberto Ferraz, João Pinheiro, Bernardino de Lima, Augusto de Lima, Affonso Arinos, Sabino Barroso, Ayres de Britto, Theophilo Ribeiro, Pádua Rezende, todos hoje nomes de ruas, praças e avenidas de BH, assinaram a ata de fundação em 10 de dezembro de 1892.

MAIS antiga do que Belo Horizonte, que comemora 120 anos, a nossa velha casa, pois eu também nela aprendi e vivi cinco anos do curso de bacharelado e dois anos do Curso de Doutorado,  viveu momentos felizes, a maior parte dos 125 anos, e alguns bastante infelizes, como aquele que a maculou e tanto a machucou, na crise dos anos 30. Quando insensatos do governo provisório instaurado por Getúlio Vargas,  decidiram aprovar “por decreto”, todos os alunos de todos os cursos, do primário  ao universitário, isentando-os dos exames finais.

A LIBERALIDADE absurda, injustificável, foi rejeitada pelo Reitor e pelo Conselho Universitário, mantida a obrigatoriedade dos exames finais. Foi o bastante para que alunos de Direito, não todos e não apenas eles, mas de outras escolas e até agitadores infiltrados, como acontece ainda hoje, reagissem com violência, diria criminosa, contra o reitor, o austero e idealista Francisco Mendes Pimentel, que presidia a reunião, e contra os professores que apoiaram a decisão.

OS que protestavam jogaram pedras, pedaços de móveis, de cercas dos jardins em torno, jogavam tudo o que encontravam à mão contra a mesa diretora da reunião e contra os assustados integrantes da congregação, ferindo alguns deles. Tentaram incendiar o prédio da Faculdade, onde se realizava a reunião, incendiaram carros dos professores. Um vexame, sem que a polícia – nada mudou? – tomasse qualquer medida de proteção e de punição dos arruaceiros.

UM dos filhos do reitor, diante da agressão ao seu pai, usou o revólver que portava e atirou contra os manifestantes, atingindo um universitário de Medicina, exatamente um dos que procuravam conter os amotinados.  Atendido e operado por dois médicos-professores que participavam da congregação, o rapaz não resistiu aos ferimentos. Sua morte agravou a crise, provocando protestos. O reitor Mendes Pimentel, desiludido com o que aconteceu, renunciou. A complexa e exaustiva missão que vinha realizando, a de implantar e fazer funcionar a Reitoria, um sonho que tentava transformar em realidade, foi por ele abandonada. Dias depois, mudou-se, com sua família, para o Rio de Janeiro e nunca mais voltou a BH.

DESCRITO com minúcias pelo professor-pesquisador  Hermes Vilchez Guerrero, o episódio teve um final melancólico. A polícia levou todos os membros do Conselho para a delegacia,  e nenhum dos estudantes responsáveis pela violência. O presidente do Estado Olegário Maciel, decretou intervenção na Reitoria e na Faculdade, e determinou o seu fechamento. Ato confirmado pelo presidente Vargas, em decreto assinado também pelo seu ministro da Justiça, mineiro e ex-professor, Francisco Campos, cassando a autonomia daquelas instituições e impondo a aprovação “por decreto”.

JÁ naquele longínquo ano de 1930, o Brasil demonstrava ser o que tem sido, com raras execeções, até hoje, graças a péssimos e incompetentes governantes: um país onde impera a irresponsabilidade, o desrespeito ao Direito, à Justiça e ao bom senso.

ACONSELHO, com entusiasmo, a leitura do livro do mestre Hermes Guerrero. O mesmo entusiasmo que, convidado pela escola e pelo autor, me levou a escrever o prefácio da obra. A história de “O Casarão da Praça da República” enriquece o nosso conhecimento e revela os bastidores não apenas da  “Vetusta Casa de Afonso Pena”, mas de BH, do Estado, do País,  e da imprensa, notadamente do “Estado de Minas”, fundado em 1928 por Pedro Aleixo e Juscelino Barbosa, professores, e Álvaro Mendes Pimentel, secretário, todos da Faculdade. Uma lição de história que recomendo.
                                                                                                                                                                                     Blog: fabiopdoyle.zip.net
Fábio P. Doyleex-aluno
Da Academia Mineira de Letras
Jornalista

0 0 760 18 dezembro, 2017 Cultura Organizacional dezembro 18, 2017

Sobre o autor

CEO e Fundador da 2/1 Revista Eletrônica, Relações Corporativas, Ombudsman, atuou no Jornal O GLOBO (GRUPO GLOBO), Diário da Tarde (Diários Associados), Diário do Comércio, Pohlig Heckel do Brasil (Grupo Belgo Mineira) e Diretor de Relações Públicas do Rotary Club.

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